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Juntos sozinhos nas redes sociais

Pessoas não são feitas de bits e chats não são conversas. Conhecer o outro está além das interfaces‬ digitais.

 

Seria possível imaginar um planeta de solitários conectados? Seria possível estarmos todos juntos ao mesmo tempo agora, e mesmo assim estarmos completamente distantes uns dos outros? Estamos construindo ou desconstruindo nossas relações interpessoais, cada vez mais mediadas por interfaces eletrônicas? Por outro lado, nossa sociedade está vivendo um momento de transição, em especial nas grandes metrópoles, onde cresce o número de pessoas vivendo sozinhas. Estariam então as redes sociais servindo de apoio psicológico para milhões de solitários ao redor do planeta? O quanto de conforto psicológico existe em possuir “centenas” de amigos, ou receber uma dezena de “curtições” numa foto na praia? Indo mais longe: até que ponto o espaço comunitário virtual, seu distanciamento e ilusão é percebido como tal por seus milhões de usuários? Segundo Sherry Turkley: “Vivemos num universo tecnológico no qual estamos sempre nos comunicando. E assim, temos sacrificado nossas conversas por uma simples conexão.” (TURKLEY, 2011).

A internet faz algum tempo deixou de ser mais uma inovação tecnológica. Hoje psicólogos, sociólogos e antropologistas tem se debruçado sobre as redes sociais como abelhas no mel. Afinal, milhões de pessoas em todo planeta estão migrando para “o outro lado da tela”, em especial para dentro do Facebook, revelando seus sentimentos, fluxo de pensamentos e cotidiano de forma explícita e sem barreiras. Stephen Marche (MARCHE, 2012), cita um estudo australiano de Tracii Ryan e Sophia Xenos da Universidade de Melbourne, no qual as pesquisadoras constataram uma correlação entre os usuários do Facebook e narcisismo: “Os usuários do Facebook têm maiores níveis de narcisismo, exibicionismo e liderança do que as pessoas que não usam o Facebook”. De fato, nas redes sociais (e em especial no Facebook) impera uma necessidade de falar de si, “coletivizar” sentimentos, escrever e publicar qualquer coisa de forma frenética, atingindo assim o maior volume e audiência possível. Seria este um sintoma de estar só? Já que o sentimento de solidão pode ser algo completamente subjetivo, no sentido em que posso estar entre dezenas de pessoas e me sentir só. Assim, ao ampliar meu grau de interação posso estar desejando “receber mais do que dar”, ser percebido, ganhar mais suporte psicológico. Para estas pessoas, a quantidade de interação social é relevante. E neste caso, não são as redes sociais ou o Facebook responsáveis pela solidão. A internet é só mais um meio de expressão, acessível, fácil e que, mesmo superficialmente, ajuda a aliviar o sentimento de estar só.

Ao mesmo tempo, os solitários crescem ao redor do planeta. Segundo dados da consultoria americana Euromonitor, mais de 270 milhões de pessoas ao redor do globo, ou quase 4% da população mundial, moravam sozinhas em 2011, um crescimento de 27,6% na comparação com 2006 e de 77% em relação a 1996. Atualmente, os países em desenvolvimento respondem por quase a metade do lares unipessoais, ou 130,7 milhões de pessoas, contra 107,5 milhões em 2006, um aumento de 21,6%. Não quero dizer com isto que as redes sociais estão abrigando os solitários do mundo mas de fato, quando estamos conectados, mesmo em interações síncronas como um chat, não estamos diante de outra pessoa, estamos sós. E, basta olhar ao redor para ver o quanto é solitária a experiência de “estar conectado” quando estamos diante da tela de um computador ou outro gadget qualquer.

Se a TV é a experiência coletiva que obliterou o diálogo (basta assistir uma novela em família por exemplo), o computador e os novos gadgets interativos estão suprimindo a presença coletiva. O coletivo está sempre “virtualizado”, do outro lado da tela. Neste caso, o isolamento social é concreto, real e possui um relação direta com a atividade online. Nas redes sociais, o perigo torna-se ainda maior, porque o isolamento social se agrava, na medida em que as pessoas substituem o contato pessoal pelas diferentes ferramentas de interação. Não é possível conhecer o caráter de uma pessoa por meio de seu perfil do Facebook, fotos ou conversas online. Ainda mais crítico é que esta presença virtual pode ela também ser substituída por alguma construção binária. Avatares estão sendo usados para tratar crianças autistas (ZEYNEP,2012), chatbots ou mais genericamente socialbots (BOSHMAF, 2011), programas de software que se comportam como pessoas, conversam em salas de bate-papo ou tweetam (como por exemplo a @trackgirl) e perfis completamente falsos, hologramas virtuais, proliferam nas redes sociais. O que nos leva ao perigoso universo das ilusões digitais, onde até mesmo as relações que estamos construindo podem ser falsas e enganosas.

O universo virtual social é hoje parte essencial da realidade e do cotidiano das pessoas mas, como bem escreveu Jaron Lanier: “o primeiro princípio dessa nova cultura é que toda a realidade, incluindo os seres humanos, é um grande sistema de informação.” (LANIER, 2011).

Uma vez transformados em códigos binários, estamos sendo padronizados segundo estruturas de dados pré-definidas. Não só nossas conversas, fotos ou vídeos, mas também nós mesmos. A tecnologia ainda não é capaz de simular (e será sempre uma simulação) qualquer sentimento humano. E, em essência, mesmo que tele-transportados para o outro lado da máquina, se estivermos sós deste lado, também estaremos do outro.

Referências

BARABÁSI, A.-L. Linked: The New Science of Networks. Perseus Publishing, 2002.
BENEVENUTO, F. et all . Characterizing user behavior in online social networks. Proceedings of the 9th ACM SIGCOMM conference on Internet measurement conference, Chicago, Illinois, USA. November 04-06, 2009.
BOSHMAF, Y. et all. The Socialbot Network:
 When Bots Socialize for Fame and Money. ACSAC 11 Dec. 5-9, Orlando, Florida USA. 2011.
HAMPTON, K. et all. Why most Facebook users get more than they give – The effect of Facebook ‘power users’ on everybody else. Pew Research Center’s Internet & American Life Project 1615 L St., NW – Suite 700
Washington, D.C. 20036. February, 3, 2012.
KIRKPATRICK, D. The Facebook Effect: The Inside Story of the Company That is Connecting the World. London: Virgin. 2010.
LANIER, J. You Are Not a Gadget: A Manifesto, London: Allen Lane. 2010.
MARCHE, S. Is Facebook making us lonely? The Atlantic. May, 2012.
MILGRAM. S. The small world problem. Psychology today, 2(1):60–67, 1967.
PARISER, E. The filter bubble: What the Internet is hiding from you. The Penguin Press HC. 2011.
PESLAK, A. An Empirical Study of Social Networking Behavior Using Theory of Reasoned Action. Conference for Information Systems Applied Research. Proceedings Wilmington North Carolina, USA, v4 n1807. 2011.
TURKLE, S. The Flight From Conversation. The New York Times Sunday Review. April, 21, 2012.
TURKLE, S. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Basic Book, New York, NY. 2011.
ZEYNEP, T. Social Media’s Small, Positive Role in Human Relationships. The Atlantic. April 25, 2012.

 

**Este texto é uma produção independente e, portanto, de inteira responsabilidade do autor, não representando a opinião da IInterativa.


Ricardo Murer (28 Posts)

Ricardo Murer é graduado em Ciências da Computação e também mestre em Comunicação, ambos pela USP. Ele é especialista em estratégia digital e em novas tecnologias.



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