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Entre zumbis e vaga-lumes cibernéticos

Manhã de segunda-feira. Céu nublado mas sem previsão de chuvas. Ar seco, calor insuportável, a longa estiagem transformara a cidade num deserto de concreto e asfalto. Dentro do carro, parado no semáforo, voltei os olhos pra calçada, onde dezenas de pessoas caminhavam, passos acelerados. Pessoas?

Bastaram alguns segundos e notei algo estranho. Contei seis, depois oito, até perder a conta. Homens e mulheres caminhando sem olhar pra frente ou pro lado, sem mover os braços, os dedos das mãos sobre um zphone. Eram zumbis. No bar da esquina mais outro, cabeça baixa, olhar fixo no seu zphone, o café esfriando. Do meu lado, uma mulher dirigia teclando seu zphone freneticamente, seu carro fez uma diagonal imprevista, chocando-se com um poste. Imediatamente, um grupo de zumbis cercou o carro para fazer zelfies. Segundo a Zpedia, famoso website usado por zumbis mirins para fazer copy&paste de trabalhos escolares:

“Zelfie é um tipo de fotografia de autorretrato, normalmente tomada com um zphone. Ideal quando compartilhada em redes sociais tais como Zbook ou Zumbigram.”

No elevador do escritório, meu bom dia ecoou no vazio. Quatro zumbis, com seus rostos fantasmagóricos, olhavam para seus zphones. Estavam noutro lugar, talvez no Zbook ou Zuiter. Durante o almoço, vi famílias inteiras de zumbis, pais que não conversavam e filhos magnetizados por ztablets maiores que suas cabeças.

No final do dia, em casa, compartilhei minhas preocupações com minha esposa: “Estão por toda parte, é uma pandemia. Acredito que no escritório, somente eu e o Carlos do financeiro ainda não fomos contaminados”. Ela me tranquilizou com sua eterna confiança na ciência. Afinal, já tínhamos derrotado grandes epidemias e o governo estudava um Programa Nacional de Imunização contra os zphones. “Você precisa de férias” suspirou no meu ouvido. Um vaga-lume cruzou a varanda com seu led verde piscante.

Notas

Direção e zphones

Zumbis digitais, ao contrário de seus parentes das ilhas caribenhas, não são mortos-vivos. De fato, a maior causa de morte entre a população de zumbis digitais é o trânsito. Diversas campanhas tem sido feitas para evitar que pessoas caiam no feitiço dos zphones enquanto estão dirigindo.

R. D. Murer
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**Este texto é uma produção independente e, portanto, de inteira responsabilidade do autor, não refletindo a opinião da IInterativa.


Ricardo Murer (28 Posts)

Ricardo Murer é graduado em Ciências da Computação e também mestre em Comunicação, ambos pela USP. Ele é especialista em estratégia digital e em novas tecnologias.



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