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O apagão da internet no Brasil

Foi sem nenhuma surpresa que li as notícias sobre os problemas do escoamento da produção de soja. Caminhões parados por dias a fio, entalados nas rodovias, impactando negativamente os negócios. Não bastasse o atraso no transporte, segundo a Associação dos Produtores, em Santos um navio demora 32 dias para ser carregado, e em Paranaguá, até dois meses. A produção recorde estimada em 23,5 milhões de toneladas foi definitivamente prejudicada pela falta de infraestrutura de nosso país. Estou ficando acostumado a ler notícias sobre falta de planejamento do nosso governo.

Mas qual a relação de produção de soja, caminhões, estradas e a internet tupiniquim? Citei esta crise de infraestrutura para utilizá-la como metáfora: Imagine que cada grão de soja seja um bit, as estradas, nossas fibras óticas, redes 3G e outros meios de transmissão digital e os centros de produção podem ser vistos como os servidores, que produzem conteúdo digital. Nós somos os navios aguardando para receber “grãos/bits”. A metáfora só não é perfeita porque no caso (como vou explicar mais adiante) com a Web 2.0, nós usuários também somos produtores de conteúdo. Assim, o fluxo de “grãos/bits” ocorre em ambos os sentidos desta estrada.

A falta de investimentos em infraestrutura de transportes prejudicou a super safra de soja. Já tivemos apagões no fornecimento de energia (e ainda podemos ter outros) os quais prejudicaram nossas vidas e a produção industrial. Agora, acredito corremos o sério risco de termos um apagão nas comunicações digitais. Os sinais deste apagão já estão presentes: constantes falhas, lentidão e indisponibilidades das redes 3G, falta de investimentos (como veremos adiante) na ampliação das redes, tudo isso nos coloca hoje num cenário no mínimo absurdo: temos a banda larga mais cara do mundo e o serviço é precário e sem qualidade. Nossa internet tupiniquim vai parar.

A natureza do conteúdo digital e os dispositivos móveis

Se nos primórdios da internet o conteúdo era basicamente texto, emails e imagens estáticas, mais de 30 anos depois, o universo digital é bem diferente. Vídeo e áudio dominam o cenário global, e podemos observar uma forte preferência do internauta brasileiro por este tipo de conteúdo. Segundo o comScore, o consumo de vídeo online cresceu 18% no Brasil em 2012 em comparação com 2011. Foram 129,3 vídeos assistidos pela Internet por cada espectador no País. O YouTube (Google) continua sendo a principal plataforma na web, com 38.922 milhões de visitantes únicos em dezembro de 2012. E segundo dados do e.bit / 2013, o uso de vídeo no Facebook teve o crescimento mais rápido de 400%! Com mais vídeo e áudio trafegando pela internet, mais “largura de banda” será necessária para atender a demanda.
O problema não está somente na demanda por vídeo e áudio, mas também nos dispositivos usados pelos brasileiros para acessar este conteúdo. Se no passado, o acesso era basicamente realizado em casa ou no trabalho, por banda larga terrestre, a tendência atual é de acesso via dispositivos móveis, via redes 3G (e mais recentemente via 4G), a banda larga móvel.

Além disso, apesar do desktop liderar como forma de acesso com 77%, seguido pelo notebook ou laptop (59%), os smartphones (40%) e tablets (16%) começam a ganhar terreno. De acordo com o levantamento da CONECTA e da Worldwide Independent Network of Market Research (WIN), o brasileiro passa em média 84 minutos por dia mexendo no smartphone contra uma média mundial de 74 minutos. Já nos tablets, o brasileiro fica 79 minutos por dia nos dispositivos com telas a partir de 7 polegadas, enquanto que a média mundial registrada pelo estudo é de 71 minutos.

Quando maior o uso dos dispositivos móveis, maior será a demanda por serviços de banda larga. Video chamadas devem substituir as atuais ligações e com o aumento da qualidade/resolução das câmeras dos smartphones, podemos esperar captura e compartilhamento de fotos e vídeos em High Definition (HD).

Mas a situação da rede 3G atual é sofrível. De acordo com reportagem da Revista Exame de agosto de 2012, não temos antenas suficientes para atender a demanda crescente e operadoras não estão investindo na expansão da infraestrutura. Ao contrário, estão operando as atuais antenas de transmissão no limite da capacidade, com “mais de 4 600 linhas conecta das por unidade”! Sendo que a média americana é de 1 000 linhas por antena, na Espanha, são 460 linhas e, no Japão, 400.”

Para piorar ainda mais este cenário, vale ressaltar que vivemos nos últimos anos uma mudança de comportamento com relação ao uso da internet. Com a Web 2.0, jovens navegam mais e produzem e compartilham mais conteúdo. Um novo internauta que MacLuhan chamou de “prosumer”, o qual não se contenta em somente ver ou assistir vídeos por exemplo, mas também deseja produzir este conteúdo e compartilhá-lo na rede.

Isto aumenta significativamente a necessidade de banda larga não somente para “download” mas também para “upload” de conteúdos. Devemos ainda adicionar as camadas de interatividade, muitas vezes realizadas ao mesmo tempo que transmissões de vídeo. Não por acaso, o Skype cresceu 44% em 2012 no Brasil.
Não há dúvida que os jovens brasileiros preferem os dispositivos móveis e estar 100% do tempo conectado é uma tendência. Segundo pesquisa da Cisco, o usuário médio de smartphone gerou em 2012 aproximadamente 533 Megabytes de dados, ante 38 Megabytes em 2011. Sem dúvida, um país com 261,78 milhões de linhas ativas (dados Anatel de dez/2012) na telefonia móvel não está para brincadeira.

A pergunta é: estamos preparados para atender esta demanda? Certamente que não se nos basearmos na qualidade do serviço atual, nas multas milionárias aplicadas pela Anatel sobre as operadoras e nos investimentos urgentes ainda não realizados em infraestrutura.

O Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) sem futuro

Segundo o Ministério das Comunicações: O Programa Nacional de Banda Larga foi criado pelo Decreto nº 7.175, de 12 de maio de 2010. O objetivo do Programa é expandir a infraestrutura e os serviços de telecomunicações, promovendo o acesso pela população e buscando as melhores condições de preço, cobertura e qualidade. A meta é proporcionar o acesso à banda larga a 40 milhões de domicílios brasileiros até 2014 à velocidade de no mínimo 1 Mbps.

Sem dúvida, é louvável termos uma iniciativa governamental, capaz de ampliar o acesso a banda larga no país, entretanto temos dois problemas graves com o PNBL. O primeiro vem do fato de que, segundo relatório da Anatel, foram efetivadas apenas cerca de 1,4 milhão de vendas de planos de acesso e desse total de assinantes, mais de 300 mil já desistiu de continuar usando o serviço, optando por planos mais caros e de melhor qualidade. Importante que o governo e empresários das áreas de telecomunicações aprendam que, quando o assunto é acesso à internet, a qualidade do serviço é requisito fundamental. Este requisito torna-se ainda mais crítico para os serviços de streaming de vídeo e áudio, os quais (como mencionado anteriormente) são os conteúdos mais acessados e populares da internet de hoje. Segundo, para piorar o quadro de inadequação do PNBL, devo observar que já faz muito tempo 1Mbps deixou de ser considerado “banda larga”. Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, o Federal Communications Commission (FCC) – considera 4 Mbps como a velocidade mínima “geralmente necessária para se usar as aplicações em video e os serviços e ao mesmo tempo manter a qualidade de navegação na web e acesso ao email.” Mas o mais interessante é a ambição do programa norte-americano. O relatório do FCC chamado “Measuring Broadband America” estabelece um “Plano Nacional de Banda Larga” com o objetivo de atingir 100 milhões de lares e ter acesso para download com velocidades de até 50 Mbps até 2015 e 100 Mbps até 2020. Um exemplo que deveria ser seguido pelo nosso Ministério das Comunicações, o qual pensou pequeno.

É evidente a falta conhecimento de nossos governantes de como será a internet do futuro, das verdadeiras demandas que serviços tais como telemedicina, educação a distância e trabalho remoto por exemplo exigem das redes de comunicação digitais. Estão nivelando por baixo, pensando mais em quantidade do que em qualidade. O futuro é sombrio e não existe caminho fácil para atender a crescente demanda por acesso em nosso país. Cabe ao governo, mais do que multar as operadoras, criar um programa de incentivo para a ampliação das torres base, ajustando a infraestrutura 3G de acordo com a demanda e estabelecendo formas de controle de qualidade por meio de inspeções regulares. Também é urgente uma ação da sociedade civil para modificar as leis atuais. Vivemos ainda sob o absurdo de uma lei que permite as operadoras entregarem 10% da banda contratada. Assim, pagamos por 1Mbps mas podemos receber 100Kbps e temos que nos contentar com isto. Neste caso felizmente, a Anatel parece nos dar uma luz no fim do túnel, com uma nova regulamentação com dois novos critérios: a taxa de transmissão instantânea, que se refere à medição da velocidade a qualquer momento, com percentual mínimo de 20%, e a taxa de transmissão média, que representa a média da velocidade entregue durante todo o mês, com exigência de pelo menos 60%.

Futuro incerto

Estou preocupado com a nova rede 4G. Promessas de mais velocidade e qualidade devem aparecer nas campanhas de TV e nos outdoors do país em breve. Talvez tenhamos que passar por um apagão na Copa do Mundo diante da imprensa mundial. Será uma dura lição que poderia ter sido evitada.

Referências
Exportadores de soja perdem negócios por falta de infraestrutura. G1 – Edição do dia 22/03/2013. Acessível em: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/03/exportadores-de-soja-perdem-negocios-por-falta-de-infraestrutura.html

Gargalo logístico e colheita de grãos afetarão a safra da cana. SBA – Sistema Brasileiro do Agronegócio – quarta, 03 de abril de 2013. Acessível em: http://www.sba1.com/pt/noticias/agricultura/gargalo-logistico-e-colheita-de-graos-afetarao-a-safra-da-cana

GROSSMANN, L. O. Gargalo da Internet na América Latina exige intervenção regulatória. Convergência Digital. 17 de novembro de 2011. Acessível em: http://convergenciadigital.uol.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=28356&sid=4
MCLUHAN, M. e LAPHAN, L.H. Understanding Media : The Extensions of Man. New York, MIT Press, 1994.

MCLUHAN, M.e POWERS, B. R. The Global Village: Transformations in World Life and Media in the 21st Century. New York, Oxford UnivPress, 1994.

MCLUHAN, M.e NEVITT, B. Take today; the executive as dropout. New York, Harcourt Brace Jovanovich,1972.

MOTON, T. How much Internet speed is right for you? Different download speeds for broadband services can give Internet users a variety of online experiences. Yahoo! Homes. February, 13th. Available at: http://homes.yahoo.com/news/choose-the-best-internet-speed-for-you-224440280.html

FALCÃO, C. Rede 4G estará afiada até a Copa e os Jogos Olímpicos. RIO Negócios 09 de outubro de 2012. Acessível em: http://rio-negocios.com/rede-4g-estara-afiada-ate-a-copa-e-os-jogos-olimpicos/

LEAL, A. L. e AGOSTINI, R. Pane na telefonia. Revista Exame. 8 de agosto de 2012. Acessível em: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1021/noticias/pane-na-telefonia?page=1

RAUSAS, M. P. & all. Internet matters: The Net’s sweeping impact on growth, jobs and prosperity. Mckinsey Global Institute. May 2011. Available at: http://www.mckinsey.com/features/~/media/mckinsey/dotcom/homepage/2011%20june%20internet%20economy/mgi_internet_matters_exec_summary.ashx

SOARES, E. Brasil alarga redes para atender à demanda de mobilidade e explosão de dados. ComputerWorld. 06 de novembro de 2012. Acessível em: http://computerworld.uol.com.br/telecom/2012/11/05/brasil-alarga-redes-para-atender-a-demanda-de-mobilidade-e-explosao-de-dados/

STACCHINI, F. PNBL: Fracasso em série. Tecnologia e Propriedade Intelectual Stacchini Advogados. 29 de janeiro de 2013. Acessível em : http://stacchiniadvogados.blogspot.com.br/2013/01/pnbl-fracasso-em-serie.html
VASCONCELOS, L. Transmissão de vídeo em redes. 3 de novembro de 2010. Acessível em: http://www.laercio.com.br/artigos/HARDWARE/hard-113/hard-113.HTM

VASSILOU, V & all. Requirements for the transmission of streaming video in mobile wireless networks. in: Proc. 
ICANN 2006, September 2006, pp. 528–537.

Dados estatísticos
Ibope Media
Internet World Stats
Internet no Brasil 2012 (dados e fontes) – Avellar e Duarte

Notas

Tipos de dados e tamanho de arquivos (fonte: RJNET – Tecnologia e Internet)
• Um e-mail com texto equivalente a uma página A4 (sem hiperlinks e sem imagens) tem o tamanho aproximado de 45K bytes. Já o mesmo arquivo anexado ao e-mail (como arquivo Word por exemplo), tem o tamanho aproximado de 55KB.
• Acessar a primeira página de seu banco na Internet significa receber a transmissão de não mais que 300KB.
• Uma fotografia digital com resolução de 640 x 480 tem um tamanho médio de 120K bytes; uma foto com resolução de 800 x 600 pixels tem um tamanho médio de 230K bytes e uma fotografia com a resolução de 1024 x 768 pixels tem o tamanho médio de 450K bytes.
• Um arquivo de som no formato wma (Windows Media) com 3 minutos de duração, tem o tamanho aproximado de 1,5 MB. Um arquivo de som no formato mp3, com 3 minutos de duração, tem o tamanho aproximado de 3,5 MB.
• Um arquivo de filme, em formato mpeg, com 3 minutos de duração (por exemplo, um trailler), tem o tamanho de 26 MB.

Prosumer
Marshall McLuhan e Barrington Nevitt sugeriram o termo “prosumer” em seu livro “Take Today” de 1972. Imaginando um momento da história em que consumidor de mídias (ou conteúdo) também iria se tornar um produtor.

Conheça as características dos diferentes tipos de banda larga – Artigo de Fernando Panissi, Especial para o G1 – Acessível em: http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL866029-6174,00-CONHECA+AS+CARACTERISTICAS+DOS+DIFERENTES+TIPOS+DE+BANDA+LARGA.html

**Este texto é uma produção independente e, portanto, de inteira responsabilidade do autor, não representando a opinião da IInterativa.


Ricardo Murer (28 Posts)

Ricardo Murer é graduado em Ciências da Computação e também mestre em Comunicação, ambos pela USP. Ele é especialista em estratégia digital e em novas tecnologias.



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